terça-feira, 31 de dezembro de 2013

AMEAÇA

Segundo atentado em dois dias desafia Putin e o seu projecto de Sochi

Bombista suicida matou 14 pessoas que viajavam num autocarro eléctrico em Volgogrado. Presidente russo ainda não falou ao país, mas ordenou novo reforço de segurança.                
 
 


Pelo segundo dia consecutivo, de novo na cidade que simboliza a resistência russa e usando o mesmo método da véspera. O atentado suicida que nesta segunda-feira matou 14 pessoas em Volgogrado fez mais do que semear o medo – constitui um desafio ao Presidente russo, Vladimir Putin, faz temer pela segurança dos Jogos Olímpicos de Inverno e mostra que uma década depois do fim da guerra na Tchetchénia os jihadistas do Cáucaso continuam capazes de lançar ataques de grande visibilidade fora da região.
“Esta série de explosões visam criar um clima de terror antes dos Jogos” de Sochi, disse à AFP o analista Pavel Felgenhauer, resumindo a suspeita que paira desde que, domingo ao início da tarde, um bombista detonou os explosivos que transportava à entrada da estação de comboio de Volgogrado, matando 17 pessoas e ferindo outras 40.
Por ordem de Putin, a segurança foi reforçada nos aeroportos e estações da Rússia – muito movimentados em vésperas do Ano Novo, a festa mais importante no país. Na manhã desta segunda-feira, um autocarro eléctrico, repleto de passageiros, explodiu no centro da cidade. O Comité de Investigações Federais confirmou que foi um novo atentado suicida – o terceiro na cidade desde 21 de Outubro, quando uma mulher matou seis pessoas num autocarro.
“Pelo segundo dia, estamos aqui a morrer. É um pesadelo”, disse à Reuters uma mulher em lágrimas junto ao autocarro, reduzido a uma carcaça esventrada. Além dos 14 mortos, 28 pessoas foram hospitalizadas, cinco das quais em estado crítico. “Estamos aterrorizados. Toda a gente saiu dos autocarros e dos eléctricos e continuou o caminho a pé”, disse outra testemunha à agência Ria Novosti.
Putin, que ainda não falou aos russos desde os atentados, ordenou um novo reforço da segurança a nível nacional, com especial atenção em Volgogrado, e enviou à cidade o director do FSB (ex-KGB), Aleksandr Bortnikov. Dezenas de países, incluindo Portugal, condenaram o atentado antecipando-se ao pedido de solidariedade da diplomacia russa, que equiparou os atentados em Volgogrado aos que visaram os EUA ou a Síria. “Não vamos recuar e vamos continuar a luta contra este inimigo insidioso que só pode ser derrotado em conjunto”, afirmou em comunicado.
A mesma pista
Vladimir Markin, porta-voz dos investigadores, revelou que os fragmentos encontrados no autocarro indicam que a bomba era idêntica à detonada na central de comboios e admitiu que os dois engenhos “podem ter sido preparados no mesmo local”.
As autoridades voltaram a não identificar o atacante, dizendo apenas suspeitar de “um homem em cujo corpo foram recolhidos fragmentos enviados para testes genéticos”. Domingo, as suspeitas recaíram sobre uma mulher, que a imprensa disse ser oriunda do Daguestão, república vizinha da Tchetchénia, mas nesta segunda-feira foi divulgado um vídeo de segurança mostrando um homem a passar pelo detector de metais da estação segundos antes da explosão.
Mas é no Cáucaso do Norte e nos violentos jihadistas da região que as suspeitas se concentram, em especial depois de Doku Umarov, o guerrilheiro tchetcheno que se proclama emir do Cáucaso, ter desafiado os radicais a “usarem a máxima força” para impedir os Jogos de Sochi, uma competição “satânica” realizada sobre “as ossadas de muitos muçulmanos”.
A organização dos Jogos assegurou que “tudo o que podia ser feito [para proteger a competição] já foi feito” e o Comité Olímpico Internacional disse “não ter dúvidas que a Rússia estará à altura da tarefa”. Putin, que presidirá em Sochi à primeira grande competição em solo russo desde a queda da URSS, não olhou a gastos para blindar a estância do mar Negro. O trânsito estará vedado a não residentes a partir de 7 de Janeiro (um mês antes do início dos Jogos), além dos bilhetes os espectadores terão de pedir passes de acesso ao recinto, mediante a apresentação de passaporte e haverá drones a vigiar em permanência o recinto.
Cidade símbolo
“Isto é uma forma de dizer à Rússia ‘vocês podem montar toda a segurança que quiserem em redor dos Jogos. As pessoas comuns nas maiores e mais conhecidas cidades não vão estar protegidas'”, disse à AP Edward Turzanski, especialista em terrorismo do Foreign Policy Research Institute, nos EUA.
Volgogrado é um alvo mais fácil. Situada entre Moscovo (900 km a norte) e Sochi (700 km a sudoeste), é a metrópole mais próxima do Cáucaso, ao qual está ligada por várias linhas de autocarro. Volgogrado, antiga Estalinegrado, foi também palco da grande batalha em que o Exército Vermelho derrotou as tropas de Hitler, em 1943. “É o símbolo do sofrimento e da vitória na II Guerra Mundial e foi escolhida precisamente pelos terroristas por causa desse estatuto na mente dos russos”, explicou ao Washington Post Dmitri Trenin, do Carnegie Center de Moscovo.
Na imprensa pediu-se mão dura com os terroristas e um deputado do Partido Liberal (populista) sugeriu o fim da moratória à pena de morte. Mas todos os sinais indicam que o Kremlin quer tratar este assunto como um caso de polícia e não um assunto de Estado – elevar o nível de alerta terrorista a nível nacional poderia criar alarmismo em redor dos Jogos, dizem os analistas. Mas em marcha está já uma caça ao homem: a televisão Russia Today noticiou que 260 grupos de busca e 142 equipas de investigadores estão em Volgogrado, tendo revistado mais de 1500 locais em menos de um dia. 

 

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