A pequena Paris
NEUZA MACHADO
No
entanto, “que belo lugar”! Tão “limpo”! “Lembrava Paris”. O Ribamar até
então era apenas um “caboclo mal vestido, calças de brim, camisa de
algodão cru de dura goma, chapéu de palha na cabeça e mala de madeira
enrolada na mão”. Quem estava a se lembrar de Paris ao apreciar a
Cidade? O primeiro ou o segundo narrador? Ou um terceiro
viajante-narrador, profundo conhecedor da Cidade de Paris? Como poderia o
Ribamar de Sousa da “mala de madeira enrolada na mão”, ou mesmo o
segundo narrador, lembrar-se de Paris? Seria a Paris decalcada no
“Cosmorama”, aquele interessante aparelhozinho ótico que o acompanhou
quando de sua peregrinação até ao Seringal Manixi?
Diz o
narrador, ao refletir ficcionalmente o declínio sócio-econômico da
Cidade de Manaus: “Tudo o que era sólido se desfazia no ar e ruía como
um castelo de cartas. O Teatro Amazonas foi abandonado, transformado em
depósito de borracha velha. O que sobrou foi muito pouco, mas era o que
eu mais amava”. O Teatro Amazonas, mesmo transformado em depósito de
borracha velha, era o local que o narrador “amava”. O Teatro Amazonas, o
símbolo da Cidade manauara, se estabeleceu no alto, como marca do poder
da era da borracha. Posteriormente, “em ruínas”, significou a
decadência de um primitivo Império capitalista, o de base familiar. Uma
outra forma de Capitalismo Selvagem estava a surgir no mundo: o
Capitalismo sem freios das multinacionais estrangeiras. Naquele instante
universalmente dinamizado, o Teatro tornou-se um artigo sem serventia
para os manauaras, um monumento do passado em ruínas, abrigado em uma
Cidade em ruínas sócio-financeiras. No entanto, para o narrador-cidadão
do mundo, ainda era o lugar mais “amado” (não seria de se admirar o fato
de que, no momento, neste ano de 2008, o narrador aqui realçado esteja a
escrever um romance chamado Teatro Amazonas).
O fogo da labareda da serpente
Sobre O AMANTE DAS AMAZONAS, de Rogel Samuel
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