terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Neuza Machado: Esplendor e decadência do império amazônico


Neuza Machado: Esplendor e decadência do império amazônico

 

Sobre o romance O amante das amazonas de Rogel Samuel

 

 

 

 

Sobre a obra poética de Paul Claudel:

 

Há, porém, lugar para uma poética do sangue valoroso. Paul Claudel dará vida a essa poética do sangue vivo, tão diferente da poesia de Edgar Poe. Citemos um exemplo em que o sangue é uma água assim valorizada: “Toda água nos é desejável; e por certo, mais que o mar virgem e azul, ela recorre ao que existe em nós entre a carne e a alma, nossa água humana, carregada de virtude e de espírito, o ardente sangue obscuro” [Citação no 9, de Gaston Bachelard, op. cit.:Paul Claudel, Connaissance de l’est, p. 105].[i]

 

Eis o pensamento filosófico de Gaston Bachelard sobre o “sangue”, na obra de Edgar Alan Poe, Gordon Pym:

 

Com Gordon Pym estamos aparentemente nas antípodas [nos opostos] da vida íntima: as aventuras querem-se geográficas. Mas o contista que começa por uma narração descritiva sente a necessidade de dar uma impressão de estranheza. É preciso, pois, inventar; é preciso apelar para o inconsciente. Por que a água, esse líquido universal, não poderia, também ela, receber uma propriedade singular? A água encontrada [em Poe] será, por conseguinte, um líquido inventado. A invenção, submetida às leis do inconsciente, sugere um líquido orgânico. Poderia ser o leite. Mas o inconsciente de Edgar Poe traz uma marca especial, uma marca fatal: a valorização se fará pelo sangue.[ii]

 

Pensamento filosófico de Gaston Bachelard sobre o “sangue” [água humana], na obra poética de Paul Claudel:

 

Aqui, o consciente intervém: a palavra sangue não será escrita nessa página. Se a palavra fosse pronunciada, tudo se coligaria contra ela: o consciente a recalcaria logicamente como um absurdo, experimentalmente como uma impossibilidade, intimamente como uma lembrança maldita. A água extraordinária, a água que surpreende o viajante, será pois o sangue não-nomeado, o sangue inominável. Eis a análise com relação ao autor.[iii]

 

E com relação ao leitor? Ou ─ o que está longe de ser geral ─ o inconsciente do leitor possui a valorização do sangue: a página é legível e pode até, com boa orientação, emocionar; pode também desagradar ou mesmo repugnar, o que é ainda sinal de valorização. Ou então essa valorização do líquido pelo sangue falta no leitor: a página perde todo o interesse; é incompreensível. Em nossa primeira leitura, na época de nossa alma “positiva”, víamos ali apenas uma arbitrariedade fácil demais. Depois, compreendemos que, se essa página não tinha nenhuma verdade objetiva, tinha pelo menos um sentido subjetivo. Esse sentido subjetivo força a atenção de um psicólogo que se demora reencontrando os sonhos que preludiam as obras.[iv]

 

Em nossa primeira leitura, na época de nossa alma “positiva”: Aqui está o filósofo Gaston Bachelard aludindo à sua fase anterior, cientificista (conhecida hoje, mundialmente, como “o Bachelard diurno”), e reconhecendo o valor de observar as significações subjetivas contidas nas grandes obras literárias (o Bachelard noturno).

Mas, encontro-me às voltas com a palavra “rio”, colocada comparativamente ao “sangue” e ao “látex”, indistintamente, neste parágrafo rogeliano, sobre o amor homossexual entre as duas indiazinhas Numas. A palavra “rio” associada ao “sangue” e ao “látex” está ali subentendida como um “sangue maldito”, à moda de Poe, ou como “um sangue valoroso”, à semelhança de Paul Claudel? Penso que este “rio” em especial possui as qualidades simbólicas referentes às três dimensões ─ sócio-substancial, mítico-substancial e ficcional ─ desta obra literária pós-moderna/pós-modernista de Segunda Geração, ou seja, a palavra “rio” tanto poderá ser avaliada pelo plano subjetivo quanto pelo plano objetivo ou pelo imaginário-em-aberto do escritor.

Pelo ponto de vista da objetividade, “o morno rio ressurge, como látex do sangue aquecido”, do “sangue vivo”, “valoroso”, ligado à “carne e à alma”, repleto de “virtude e de espírito”, “o ardente sangue obscuro” (historicamente, pouco conhecido) do amazonense (seja ele seringueiro, índio, bugre ou caboclo; masculino ou feminino). O látex das árvores da borracha intimamente associado ao sangue valoroso daqueles trabalhadores/seringueiros que deram a própria vida, estagnada “no mudo e no nulo do anônimo de uma monotonia circular e estéril, de uma mecânica vida mascarada de impessoal catástrofe”, “condenada a morrer de malária no antro da floresta comida de bicho”[v]. “Rio”/Floresta como “antro”, ou seja, lugar escuro e profundo que serve de covil às feras e de refúgio aos ladrões e salteadores. Aqui o “consciente intervém”, por que este rio rogeliano, de sangue e látex, propicia uma “lembrança maldita”, é um “sangue inominável”, não há como nomeá-lo como “desejável”, por ser algo vil e revoltante.

“Mas a vida é um caminho que de repente se bifurca” e este mesmo “rio” poderá ser revisto fenomenologicamente, pelo ângulo da subjetividade “de um psiquismo acentuado”, como foi visto na obra de Edgar Alan Poe, por Gaston Bachelard, correndo “pesadamente, dolorosamente, misteriosamente”, também ele (o mesmo rio), “como um sangue maldito”, como um “sangue que transporta a morte”. E é importante assinalar, de antemão, que todos os rios amazonenses, nesta obra de Rogel Samuel, se revelarão como passagens para diversas mortes, inclusive, como referenciais dolorosos de mortes simbólicas, como, no final, a do narrador à moda antiga, tradicional, exemplar, contador de histórias apreciáveis e memoráveis (o primeiro narrador).

Mas, por enquanto, visto por este prisma interiorizado, este “rio” íntimo, particular, que banha os corpos sexualizados das duas indiazinhas Numas, poderá ser visto como “uma poética do drama e da dor”, à moda bachelardiana. A palavra “sangue”, colocada ali, no romance, sob aparência aleatória, também não é um “sangue feliz”. “É uma poética do drama e da dor” de quem narra. “É preciso, pois, inventar; é preciso apelar para o inconsciente”, urge dar forma ficcional confiável a essa dor que, no momento, está a atingir o narrador de Rogel Samuel. A “água” e a cena do amor homossexual entre as indiazinhas Numas terão de ser “inventadas”, porque os Numas/Numes “não ficavam visíveis, às claras, de frente, nítidos” e só poderiam ser “difusamente entrevistos e só pressentidos na obliqüidade do olhar”.

E é exatamente esta “obliqüidade do olhar” que me permite, como leitora privilegiada desta obra de Rogel Samuel, interagir com as camadas míticas, inseridas neste romance diferenciado. Penso que não está a faltar-me o sinal de valorização da palavra “sangue”, subentendida a partir do relacionamento amoroso das duas indiazinhas. Ali, o que se evidencia e que se valoriza é o mítico “sangue” da primitiva humanidade, um “sangue” originário, ímpar, sexualizado e andrógino, “movendo-se sempre” [nas artérias aquáticas], “movendo-se sempre nas igualmente imaginárias áreas do Rio Pique Yaco, do Rio Toro, e do além mais”[vi], oriundos, todos esses rios rogelianos, do Olimpo imensurável das Montanhas Andinas.

Como divindades do ar, matéria volátil esta que, no momento, está acasalada à água mítica, eterna, os Numas/Numes não têm como se alertarem da presença do narrador e não sentirão o peculiar e autêntico cheiro humano. Enquanto Numas/Numes voláteis permitem a elevação da imagem ficcional para o plano mítico, e vice-versa, recuperando assim conceitualmente a imagem inicial feminina. Por esta espiral interpretativa dos planos superpostos, não importa/não importará a forma de polarização sexual dos Numas/Numes rogelianos. Seja na forma masculina ou feminina, o ato sexual/amoroso dos Numas/Numes torna-se mitificado, desrealizado, por intermédio do olhar de quem narra. Em verdade, os Numas são seres aéreos miticamente indefinidos.

Entretanto, foi o narrador-personagem Ribamar de Sousa, alter ego do escritor amazonense Rogel Samuel, “o primeiro a ver uma fêmea Numa”. É verdade. Os ficcionistas anteriores, os considerados como verdadeiros criadores ficcionais, amazonenses ou não, não ousaram infringir as leis dos pensamentos preconceituosos já instituídos, preservadores da hipocrisia familiar, esta, por sua vez, avessa à libertação de juízos formalizados a respeito de afinidade sexual entre indivíduos do mesmo sexo. E esses pensamentos institucionalizados, repressores, impediram, até ao final do século XX e do milênio, a exposição denotativa do assunto, mesmo que fosse pela forma ficcional.
Rogel Samuel, ficcionalmente, intuitivamente ou não, percebeu os dogmas imperialistas sobre o assunto e os ultrapassou. A sua infração sócio-ficcional se notabiliza ao longo de sua narração sobre os Numas. Por minha parte, para interpretar a cena em que o personagem-narrador Ribamar de Sousa afirma ter sido o primeiro “a ver uma fêmea Numa”, vejo-me na eventualidade de buscar, uma vez mais, auxílio cognitivo em A água e os sonhos, de Gaston Bachelard, lembrando aqui que o filósofo francês, por seu turno, não se esquivou da busca de digressões metafísicas em outros pensadores. No capítulo II do livro anteriormente assinalado (AS ÁGUAS PROFUNDAS ─ AS ÁGUAS DORMENTES ─ AS ÁGUAS MORTAS), há uma citação de Nietzsche, retirada do livro Schopenhauer, página 33: “É preciso adivinhar o pintor para compreender a imagem”[vii].




[i] Ibidem.


[ii] Ibidem.


[iii] Ibidem.


[iv] Idem: 63 - 64.


[v] SAMUEL, Rogel, 2005: 31.


[vi] Ibidem.


[vii] NIETZSCHE. In.: BACHELARD, Gaston, 1998: 47.

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