terça-feira, 1 de abril de 2014

BILAC

BILAC
 
ROGEL SAMUEL
 
 
 
 
                No primeiro verso do soneto "Aos sinos" diz Bilac: "Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta..." Lembro-me de ter lido em Hannah Arendt que, em 1957, foi lançado o primeiro satélite, foi saudado com alegria, diz ela, como"o primeiro passo para libertar o homem de sua prisão na terra". Por que não gostamos da Terra? Por que a destruímos? "A Terra, diz, é a própria quintessência da condição humana" [A condição humana].
               Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes,
          Ardemos numa louca aspiração mais vasta,
Para trasmigrações, para metempsicoses! 
Entro em casa. Ouço a fita de Christopher Schindler. É a gravação do concerto de 15 de junho de 2000, Portland, a que assisti. Bilac atual, poderoso.
               Cantai, sinos! Daqui, por onde o horror se arrasta,
        Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses,
        Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!
        Levai os nossos ais rolando em vossas vozes! 
Releio sempre Bilac. Os modernistas o odiavam. Tem momentos supremos. "Politicamente, diz Arendt, o mundo moderno em que vivemos surgiu com as primeiras explosões atômicas". Chris toca o "Tango", de Castro, um argentino. Depois arremete a "Sonata Dante", de Liszt, que busco no soneto "Dante no Paraíso":
                     Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante
               Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz:
               Triste no sumo bem, triste no excelso instante,
               O poeta compreendera o mal de ser feliz. 
As notícias do mundo vêm devagar, entram pela TV, de muito longe, como se de outro universo, lugar muito distante, cheio de guerras, miséria. Qual o "mal de ser feliz"? Elas penetram a sala de trabalho como penetra o fio de fumaça de um incenso. A terra ao nosso amor não basta... Fio de fumo da "fragilidade dos negócios humanos".  A Sonata de Liszt  conta, como Carpeaux: "Meu Dante" - "Dante pode ter sido, diz ele, em vida, um homem intratável, irrascível e orgulhoso, convencido do seu direito de ser lembrado e venerado por todos os séculos. Mas essa pretensão enorme se reduz, afinal,  à exigência de ser lido." Otto Maria Carpeaux foi nosso paraninfo, na Faculdade (a FNFi). Como era gago, seu discurso foi lido por um colega nosso. Atravessei a vida daquele tempo lendo seus artigos diários, no "Correio da Manhã". De tanto lê-lo, apreendi a técnica:  Geralmente com quatro parágrafos. O primeiro era uma espécie de introdução. O segundo, uma tese, uma proposta, uma opinião. O Terceiro o inverso, o contrário. O quarto e último parágrafo, que era a conclusão, significava a superação da contradição. Assim, o ensaio, geralmente pequeno, era a dialética de um tema. “Todos os anos costumo reler a Divina Comédia inteira”, diz ele. Lembro-me bem, dele. Como me recordo da Universidade do Brasil. E do Reitor Pedro Calmon.
        Um dia, estudando na Biblioteca, senti que alguém estava atrás de mim. Era Pedro Calmon. Interessado no que eu estava lendo. Conversamos, ou melhor, ele falou. Calmon era homem extraordinário. Como eu tinha uns 19 anos e cara de menino, perguntou de onde eu era, como morava e vivia. Indagou se a comida do bandejão era boa (dizem que às vezes comia lá, nunca vi). Disse-me que se eu precisasse de qualquer coisa teria nele um pai. Deu-me seu cartão. Era homem imprevisível. (A terra ao nosso amor não basta...) Certa vez, vindo pela Cinelândia de carro, viu um policial espancando um "pivete". "Pare o carro!" e partiu contra o guarda, aos gritos: "Pare com isso! Pare com isso! Ele é apenas uma criança!"
Vi-o numa das primeiras passeatas de estudantes. Ele apareceu sob estrondosa vaia. Queria fazer parar a massa, que rumava pela Rio Branco. Chorava. Tentava falar. "Não façam isso!" vociferava. "Não provoquem a reação! Vocês vão radicalizar!" Tinha razão, se viu depois. ("Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses"). Anos depois fui seu vizinho, na Rua Santa Clara, Copacabana. Ele morava numa grande casa estilo (creio) normando. A esquerda sempre o desprezou, porque os presidentes da ditadura freqüentavam aquela casa. Quando ele morreu, os jornais não deram uma linha, exceto o que saiu no obituário. Mas ele vinha de longe, como se diz. Foi Ministro da Educação (1950-51). Sua "História do Brasil" em 7 volumes era citada por gente como Roberto Simonsen, que diz na "História Econômica do Brasil"  se baseou em Euclides, Afrânio Peixoto, Gilberto Freire e Pedro Calmon para "fixar o valor do nosso homem, como fator de produção". Força de trabalho morena. Calmon foi um dos poucos convidados à cerimônia da coroação, na Inglaterra.
Quando a rainha esteve aqui, meu amigo Don Kulatunga Jayanetti, monge budista do Sri Lanka, foi convidado por um embaixador asiático. Havia uma fila, para cumprimentá-la. Don parou a fila, Sua Majestade conversou com ele,  revelou conhecimento e interesse budista. O Príncipe, seu esposo, continuou o diálogo, lhe disse ter feito um retiro de meditação Vipássana, no Ceylão. Mas...
  
Ma la notte risurge e oramai 
é da partir, ché tutto avem veduto. 
                

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